Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Resumo e Comentários.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Obra de Mário de Andrade. Uma Rapsodia considerada a principal obra da primeira fase do modernismo. É um misto de lenda, folclore e crônica cômica despojada.


Macunaíma. o herói sem nenhum caráter. Livro de Mário de Andrade
by Roberto M.
Macunaíma é a obra-prima de Mário de Andrade, provavelmente, a mais importante realização da primeira fase do Modernismo
Segundo definição do próprio autor, “é um emaranhado de coisas peculiares, dilúvio de brasileirismos de toda casta”. É uma obra de caráter coletivo, agrupando elementos misturados de três raças conflitantes e desencontradas: a europeia, a ameríndia e a negra.

Representa não só o resultado de pesquisas de Mário como poeta, prosador, músico e folclorista, mas também a plena realização do projeto nacionalista dos escritores de sua geração.
À semelhança de um verdadeiro rapsodo (nome dos antigos poetas gregos ambulantes, que iam de cidade em cidade recitando versos alheios e cristalizando toda uma tradição oral), percorreu o país e reuniu estudos sobre mitologia indígena, folclore nacional, costumes e língua cotidiana dos brasileiros e, em uma semana do mês de dezembro de 1926, redigiu a primeira versão da obra que, dois anos depois, seria editada após mais quatro redações.

CARACTERÍSTICAS DA OBRA

O livro Macunaíma escrito por Mário de Andrade é uma obra de difícil classificação. O próprio autor, ao tentar classificar sua obra quanto ao gênero sentiu dificuldades. São tantas as características misturadas em todos os aspectos que dizer se é romance, epopeia, crônica ou qualquer outra coisa fica meio complicado.

O crítico literário Alfredo Bosi observa pelo menos três estilos mesclados dentro da narrativa:
- Um estilo de lenda, épico-lírico, solene, ao reforçar o caráter histórico de um povo, na criação de um herói identificado com a nação e ao mesmo tempo dando lhe uma origem mítica.
- Um estilo de crônica, cômico, despojado, ao retratar o cotidiano de um herói que tem, ao mesmo tempo, um aspecto contraditório de anti-herói.
- Um estilo de paródia, de imitação de estilos já tradicionais.

Com tudo isso, o autor soube trabalhar os diversos níveis de consciência e de comunicação, o que justifica o gênero Rapsódia, com o qual se costuma rotular a obra.
A linguagem adotada não foge à estrutura da rapsódia. Utilizando-se de provérbios e frases feitas, Mário de Andrade reforça ainda mais a ideia de lenda, de folclore, de coletivo.
Com o fim de registrar o modo brasileiro de falar, criou uma língua escrita muito própria. Há um coquetel do falar do índio, do negro, do português, do gaucho, do nordestino e de muitos outros falares.

PERSONAGENS

Macunaíma: personagem central da história. É um herói contraditório, uma vez que não tem nenhum caráter. Independente disso é querido por todos os que o cercam. Seu físico remete a um apanhado geral da população brasileira. O herói nasce índio-negro e, por magia, torna-se loiro de olhos azuis. As incontáveis transformações do herói revelam não só o universo mágico, mítico, lendário da obra, mas, confirma o caráter eternamente mutante do herói. É criança, príncipe lindo, homem, com rosto de “piá”, vira francesa para enganar o inimigo, vira pedacinho de torresmo, ressuscita com a magia de Maanape e por aí continua se transformando até cansar da vida e virar Ursa Maior.

Maanape e Jiguê: respectivamente, irmão “já velhinho” e irmão “na força do homem”. Ambos acompanham Macunaíma na busca pela Muiraquitã e morrem (transformam-se na cabeça esquerda de um pássaro) sem retornar com ele para o Amazonas.

Sofará e Iriqui: companheiras de Jiguê que “brincam” com Macunaíma no mato, reforçando seu caráter muitas vezes traiçoeiro.

Mãe: Índia tapanhumas que é morta por Macunaíma numa trapaça de Anhangá.

Ci: mãe do mato-virgem, imperatriz da tribo de mulheres guerreiras, as Icamiabas. Será a companheira inesquecível de Macunaíma e, ao se transformar em estrela, lhe deixará a muiraquitã, amuleto que, quando perdido, desencadeia a demanda em que o herói se envolve.

Icamiabas: Índias guerreiras, súditas de Ci e de seu agora eterno companheiro, Macunaíma. É a elas (analfabetas) que Macunaíma escreve uma carta de São Paulo, pedindo dinheiro.

Venceslau Pietro Pietra: Representante do imigrante que faz fortuna em São Paulo. Na verdade ele é o terrível inimigo de Macunaíma, o gigante canibal Piaimã. Pela disputa pela pedra, os dois passarão todo o tempo criando armadilhas um para o outro. No fim, Piaimã é derrotado, morrendo na armadilha preparada por Macunaíma.

Outros personagens: Mais uma infinidade de criaturas mágicas ou históricas aparece com maior ou menor destaque, às vezes apenas citadas, como é o caso de Sumé (São Tomè) que, na sua passagem pelo Brasil, teria deixado a marca de seu pezão.

ENREDO

Macunaíma nasce no fundo do mato-virgem, parido por uma índia tapanhumas virgem, filho do medo da noite. O seu nascimento é narrado num tom lendário, atribuindo-lhe a grandeza digna de um herói.
A criança Macunaíma, porém, já vai revelando seu perfil.

De início, passa mais de seis anos sem falar. Quando o incitam, apenas murmura “Ai que preguiça!”, mas, para ganhar vintém, acaba se mexendo. De resto, gostava mesmo era de fazer gracinhas para as índias da tribo.

Um dia, foi levado por Sofará, a companheira de seu irmão Jiguê, para passear no mato. Lá, Macunaíma se transforma num príncipe lindo e os dois “brincam” exaustivamente. No dia seguinte, a aventura se repete. Jiguê acaba descobrindo a traição e devolve a moça para sua tribo. Mais tarde, Jiguê arruma outra companheira, Iriqui, que também acabará indo para o mato “brincar” com Macunaíma.

Tempos depois, a mãe irritada com o comportamento de Macunaíma, deixa-o sozinho na floresta. Tentando encontrar o caminho de volta, engana o traiçoeiro Curupira e, contando suas aventuras à cotia, é transformado, como premio por sua esperteza, em homem. Porém, a mágica responsável pela transformação não atinge a cabeça, que continua de criança.

Enganado por Anhangá (diabo), Macunaíma mata a própria mãe, pensando ser uma viada. Abatido, resolve se embrenhar pela mata em companhia de Maanape e Jiguê.
Nessa jornada encontram Ci, a mãe do Mato. Com a ajuda dos irmãos, Macunaíma consegue “brincar” com Ci e torna-se o Imperador do mato-virgem. O casal “brincará” tanto que Ci terá um filho prematuro depois de seis meses.

Ci amamenta a criança apenas com um peito, pois o outro é seco. A Cobra Preta, porém, chupa o seio bom, envenenando-o. A criança, ao ser amamentada, morre e, depois de ser enterrada, vira a planta de guaraná.

Ci, consternada, resolve deixar a terra e se transforma na estrela Beta da constelação Centauro. Antes de partir entrega, como lembrança, a pedra Muiraquitã, para Macunaíma.
O herói perde a pedra, mas fica sabendo, pelo pássaro uirapuru, que ela foi parar nas mãos de Venceslau Pietro Pietra, comerciante peruano e colecionador de pedras que mora em São Paulo.

Macunaíma, junto com seus dois irmãos, resolve partir para São Paulo para recuperar o amuleto. No caminho, cansados pela caminhada, resolvem tomar banho em uma lagoa que, sem eles saberem, tinha uma água mágica. Era a água que brotara da marca deixada pelo pezão de Sumé (São Tomé).
Macunaíma entrou primeiro. Ao sair da lagoa, ele, que era preto retinto, tornou-se loiro de olho azul.

Jiguê, em seguida, só consegue ficar da cor do bronze, pois a água já estava muito escura devido à negrura do herói que havia ficado nela.
Quando Maanape tenta se lavar, quase não há mais água, pois Jiguê havia transbordado quase tudo. O irmão mais velho só consegue molhar as palmas das mãos e a sola dos pés que ficam vermelhas, mas ele continua preto retinto.

Já em São Paulo, Macunaíma, deslumbrado com as novidades e os encantos da civilização, começa a planejar a reconquista da muiraquitã. Para isso terá de enfrentar o colecionador que, na verdade, é o terrível Piaimã, gigante comedor de gente.

Para se aproximar do gigante, o herói decide se transformar em francesa. Entretanto, Piaimã se encanta com a francesinha e quer “brincar” com ela. Macunaíma consegue fugir.
Como vingança, o herói vai até um terreiro de macumba no Rio de Janeiro e, de lá, com a ajuda de Exu, dá uma surra no Piaimã e só não o mata porque fica com preguiça.

O gigante passará muito tempo se recuperando. Quando enfim isso acontece, organiza uma festa para os “amigos” onde fará uma “macarronada antropofágica” com molho de carne humana.
Quando o herói chega, é convidado a se sentar num balanço colocado sobre o tacho do macarrão. Desconfiado, Macunaíma diz que não sabe balançar e pede para que o gigante o ensine.

Piaimã cai na armadilha e senta-se no balanço. Macunaíma empurra o balanço cada vez com mais força e o gigante acaba por ser atingido pelo espeto que havia sido preparado para atingir Macunaíma.
O gigante cai no tacho fervente e morre.

Macunaíma recupera a pedra e volta para o Amazonas, mas sem os irmãos, que morrem transformados na cabeça esquerda do urubu-ruxama.
Doente, sozinho e sem índia para “brincar”, o herói desanimado resolve tomar banho, atraído pelo canto da Uiara. É quase morto pelas piranhas e perde a pedra novamente.

Cansado e triste, desiste da vida e transforma-se na Ursa Maior.
Tudo ficou deserto. A tribo Tapanhumas acabou.
Um homem, que um dia apareceu por lá, encontrou um papagaio que lhe contou toda a história de Macunaíma. Esse homem é o próprio narrador.

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Um comentário:

  1. Macunaíma é a personificação da identidade brasileira.

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