A carteira que virou espingarda e acabou curando um aleijado.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Historinha verdadeira do vovô que esquecia palavras e colocava outras quaisquer no lugar. Às vezes gerava confusão: trocou carteira por espingarda e fez um aleijado sair correndo.


O vovô que trocava palavras: trocou carteira por espingarda e assustou o rapaz de muletas
by Telma Manolio & Telma Fernandes 
Essa é uma história verdadeira do passado. Outra do criativo e fabuloso Serafim.
O vô Serafim era assim mesmo, esquecia as palavras e soltava qualquer uma para substituir aquela que ele não conseguia lembrar.
A família estava acostumada. A vovó adivinhava o que ele queria dizer, as filhas imaginavam o que podia ser, os netos ficavam falando palavras até acertar, mas os estranhos não entendiam nada quando ele trocava alhos por bugalhos, ou pior, trocava carteira por espingarda.

Várias vezes isso acabou sendo útil, como nesta história onde se descobriu a maldade de uma pessoa que tentava tirar proveito da bondade alheia.
Caso você ainda não tenha lido ¨Mentirinhas do passado. O caldo que voltou para a marmita¨, leia, pois essa história também se refere àquele menininho.

Era início da segunda metade do século XX, ainda não havia sido inventada a televisão e aquele menino do caldinho do feijão já tinha onze filhos (7 meninas e 4 meninos) e alguns netos. Além disso, estava muito rico: tinha prata nos cabelos, ouro nos dentes e muitas histórias para contar.

O Serafim continuava criativo, mas já não era moleque.
Para chamar uma das sete filhas e não ficar invocando cada uma delas até acertar, ele usava um artifício interessante: gritava ¨Meninicas¨ e todas acudiam.
Aí era mais fácil: apontava aquela que queria chamar e estava resolvido o problema.

Quando precisava de algum objeto, uma toalha, uma xícara, uma camisa, um talher, um chinelo e, a palavra lhe faltava, ele apontava e dizia: “Dá a espingarda” e a “Meninica” ou neto que estivesse por perto, inserido no contexto, o atendia.
Resolvia-se a questão, mas às vezes uma certa confusão era gerada.

Após o jantar era costume todos irem para a varanda e ficarem conversando (lembra, ainda não existia televisão). Uma das “Meninicas” tocava acordeom e o vovô Serafim contava seus ¨causos¨.

Num fim de tarde, a família estava toda lá na varanda, cantando, rindo, brincando, ouvindo os ¨causos¨.
De repente, achegou-se ao portão de entrada um senhor apoiado em muletas, andando com muita dificuldade, coitado, todo torto.
O vovô Serafim levantou-se, foi até o portão, ouviu a história do homem desconhecido que pedia uma ajuda.

Querendo dar um dinheiro ao pobre coitado, virou-se para a varanda no intuito de pedir a carteira e disse: ¨Meninica¨ pega lá... (aí falhou a memória); pega lá... (silêncio);  pega lá... (silêncio); pega lá... A espingarda.
Uma das filhas, já em pé na porta, entrou rápido para pegar a carteira.

Quando nos viramos para o portão, lá só estavam as muletas. O homem já ia longe, correndo numa desenfreada carreira.
Quanto mais gritávamos: ¨Moço!¨. ¨Moço!¨, mais ele corria.

Caso você encontre o homem, correndo aí por perto da sua casa, diga a ele que pode voltar para pegar as muletas e que o vovô Serafim só havia pedido a carteira.

Esta história foi escrita a quatro mãos. São duas Telmas , mas o avô é um só.
E as histórias que povoam as mentes dos netos, ah, essas são inúmeras. Todas elas misturadas com o sabor amargo das lembranças, mas resultando numa alquimia mágica que faz nascer o doce sabor da saudade.

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2 comentários:

  1. Olá Meninicas !! Adorei a aventura !
    este tipo de texto além da história divertida, traz para nós que lemos uma deliciosa sensação ao imaginarmos tais fatos, muito gostoso mesmo :)
    Fiquei aqui rindo imaginando o medo do rapaz, mas pelo menos aposto que ele nunca mais deve ter tentando enganar boas pessoas... a troca de palavras trouxe mesmo uma cura, quem sabe da consciência do aproveitador rsrs

    Um super beijooooooooooo e que a semana de vocês seja ótima !! :)

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    Respostas
    1. Olá Samanta, que bom recebê-la por aqui, ainda mais com comentários tão simpáticos. Pois é, eu e minha prima, que se chama Telma também, resolvemos dividir a redação dessa historinha, que faz parte das nossas lembranças de infância. Imagine como foi surpreendente e engraçado ver o sujeito que todos conheciam e acreditavam ser um deficiente físico, disparar pela rua, correndo feito doido, fugindo da inocente espingarda do vovô... Obrigada pela visita e muitos beijos.

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