O disco do riacho. Mesmo quebrado tocava que dava medo

domingo, 11 de julho de 2010

História infantil que o vovô contava para os netos. O disco quebrado tocava embalado pelo vento e por um graveto que servia de agulha. Tem um pouco de nostalgia da velha Jacaúna (ex cidade do interior paulista).


O disco quebrado do riacho que tocava com o vento e um graveto.
by Telma M.
Serafim Saturnino era um homem corajoso. Morava num sítio, lá pelas bandas de Jacaúna e cavalgava à noite pelas estradas de terra, sozinho, apenas com seu companheiro eqüino. Naquela época Jacaúna era uma cidade ativa, tinha até uma estação de trem. Em alguns horários o trem passava direto, sem parar, mas havia alguns horários em que o trem de passageiros fazia uma rápida parada na pequena estação, para que um ou outro viajante saltasse.


Em geral era um vendedor que vinha para a cidade a cada trinta ou quarenta dias,
trazendo artigos da moda, famosos lá na capital.
Hoje já não existe nem a estação nem a própria cidade.

Depois que o trem da RFFSA deixou de fazer paradas ali, a cidade foi murchando lentamente, até que em menos de 100 anos ela não passava de lembrança na memória dos filhos e netos de antigos moradores que se acostumaram a ouvir as histórias contadas por quem havia participado dos gloriosos tempos em que a cidade florescera.
Eu fui uma feliz neta de um avô que me contava essas histórias.

Ele não morava na cidade, morava no sítio, como eu já contei lá no início. Era jovem ainda o Serafim, ia, à cavalo, para a cidade no sábado à noite para se divertir. Ele ainda não estava namorando a minha avó Rosa, mas ficava no “footing” observando ela passar de braços dados com as amigas na praça da única rua de Jacaúna.

“Footing” era uma atividade muito conhecida nas pequenas cidades do interior do estado de São Paulo, no início do século vinte. Os rapazes se posicionavam formando dois círculos, um pequeno, inserido no outro maior. Formava-se um corredor onde as moças ficavam passeando, umas de braços dados com as outras, amigas, conversando animadamente, enquanto se exibiam para os rapazes. Dali saíram muitos casamentos.

Nove horas da noite já era muito tarde, meu avô já estava chegando em casa nessa hora, de volta do passeio noturno. Ia montado em seu cavalo, cavalgando calmamente, absorvido pelos pensamentos, trazendo a imagem da bela jovem na memória. Rosa era muito bonita. Moreninha, cabelos pretos e longos, presos em trança com um laço azulado de cetim, olhos castanhos, vestido azul, até o tornozelo, sapatos baixos, fechados, meias escuras. Ele repassava a imagem da moça, satisfeito, pensando em como iria contar para o pai que encontrara a noiva de seus sonhos. 

Foi quando percebeu os relâmpagos e um vento muito forte, apressou o passo do cavalo com uma chicotada, mas a chuva foi chegando sem muitos rodeios. Quando se aproximou do riacho que havia no caminho, Serafim ouviu um som estranho. Apurou os ouvidos sem acreditar. Parecia música no meio do mato.

Parecia não, era música. Ele sabia que estava num local longe da civilização, por isso estranhou o som.Além do mais não havia energia elétrica naquele fim de mundo. Apesar da chuva torrencial, não se conformou com aquele barulho, tentou encontrá-lo. Buscou por toda a região da estrada e nada.

O som que ele ouvia era mais ou menos assim: “Adeus Maria Fulô”... Repetia-se esse trecho exaustivamente enquanto ele procurava de onde vinha o som, numa tarefa inglória.
Quando já ia desistindo de procurar e se preparava para atravessar o riacho, percebeu que o som vinha da água.

Apeou do cavalo e abaixou-se para olhar algo que o extasiava até muitos anos mais tarde, enquanto contava essa história para os netos que o ouviam com a boca aberta, admirados com sua emoção.

Era um pedaço de disco quebrado. O vento fazia um pequeno graveto agitar-se e tocar a ponta no caco de disco, que naquela época ainda não era de vinil, era feito de goma-laca, e 78 rpm, era uma chapa parecida com uma bolacha, de cor negra, usada no registro de músicas, discursos, trilha sonora de filmes e outros efeitos. Foram muito usados na primeira metade do século XX, até 1948, quando foram substituídos pelos discos de vinil, mais flexíveis, menos delicados menos quebráveis. O material usado na sua fabricação era a goma-laca, que dava um aspecto vítreo e muito frágil ao disco. Eram executados nos gramofones, no início, depois nos toca-discos elétricos.
O vento agitava o graveto que roçava o pedaço de disco quebrado, que tocava uma parte de uma música da época.
Resumo: contos do vovô, história em Jacaúna, contos de interior, contos de pracinha, costumes de interior antigo, o trem e a estação de Jacaúna

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Um comentário:

  1. Olha, morei por muito tempo em São José do Rio Preto, perto de onde ficava a vila de Jacaúna.
    Até achei um site sobre a estação antiga:
    http://www.estacoesferroviarias.com.br/j/jacauna.htm
    Já ouvi muitas estórias de lá, essa é nova.

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